A morte de um yorkshire como um convite à reflexão para uma participação social, cristã e cidadã.
Evil is unspectacular e and always human, and shares our bed and eats at our own table. – W. H. Auden, Herman Melville
Esta semana vi o Brasil insurgindo-se porque uma enfermeira, propositadamente e de forma extremamente violenta, matou um filhote de Yorkshire. O vídeo foi postado no “youtube” e causou em muitos comoção e revolta, a ponto de serem incitados atos de violência contra a autora de tal atrocidade e isso através de comentários nas redes sociais.
Assistí ao vídeo e, de fato, fiquei perplexo, triste e pensativo: – como pode um ser agir de tal forma contra outro ser, inofensivo, incapaz de defender-se?
De fato, o ser humano tem uma capacidade incrível de promover o mal. Somos a única raça que mata , por exemplo, por prazer. E quando falamos desta imensa capacidade em direcionar as habilidades para o mal, nem precisamos fazer alusão a Stalin, Hitler ou Saddam Hussein. Basta olharmos para pessoas comuns, do nosso bairro, do nosso ambiente de trabalho, das nossas igrejas, da nossa escola e faculdade. Mais do que isso, basta olharmos no espelho. Bem ali, diante dele, figura a imagem de um ser tão perverso e cruel quanto aqueles acima referidos.
Voltando à enfermeira: ao ler alguns dos comentários feitos em relação à ela na rede mundial de computadores, notei uma certa inversão de valores. Ou, quem sabe, a ausência destes. O que é errado é errado e ponto. Cada um deve ser responsabilizado pelos atos que pratica e de acordo com as disposições legais. Entretanto, penso ser desproporcional manifestar-se – por exemplo – a favor da “pena de morte” para aquela enfermeira quando outros atos tão sérios quanto aquele não são combatidos com a mesma intensidade e rigor. Porque, por exemplo, não nos manifestamos da mesma forma, com a mesma indignação, quando tomamos ciência de pessoas que, por agirem de acordo com as normas legais, morais e éticas, são despedidas dos seus trabalhos ou até mesmo assassinadas (como aconteceu com a Juíza Patrícia Acioli que, conhecida pelo rigor na luta contra as máfias, foi executada há alguns meses atrás com 21 tiros por ter condenado policiais militares envolvidos em ações criminosas)? Porque não nos revoltamos com a mesma veemência quando pessoas normais, como eu e você, promovem o tráfico humano ou consentem com a corrupção (já tão institucionalizada neste país)? Porque não levantamos alguma bandeira quando os idosos são tratados com descaso nas filas enormes do INSS, ou quando vemos crianças nas ruas ao invés de acolhidas em um bom lar, devidamente alimentadas e recebendo uma educação com qualidade, estes princípios constitucionais?
Será que tais questões não são tão sérias ou comoventes quanto o assassinato de um cão? Que balança estamos usando? Que valores estamos pregando? Porque tamanha inércia? Que justiça e princípios morais, religiosos e éticos estamos semeando? E quais nossos filhos colherão?
Defendo a vida em qualquer das suas formas. Defendo a necessidade de revermos nossos valores e, com equidade e justiça, garantirmos a proteção e manutenção da vida. De todas elas.
Defendo que é preciso reconhecer as implicações éticas de cada mínimo ato e palavra de nós provenientes e que ignorar tal circunstância também trará implicações sociais e políticas.
Sim! A morte de um cão expôs a ausência de valores morais, éticos e cristãos na nossa sociedade. Por outro lado, a morte deste mesmo cão nos serve como um convite à reflexão para uma participação social, cristã e cidadã.
Uma simples reflexão sobre a promoção de valores éticos e sociais como uma forma de se assegurar os Direitos Humanos.
É certo que juntamente com a evolução do mundo desenvolveu-se a necessidade de se tutelar os direitos inerentes ao ser humano e esta necessidade, obviamente, afigura-se cada vez mais emergente, independentemente das diferentes nuances que tais direitos atualmente abraçam. Ao longo de toda a história, identificamos personagens que lutaram para criar mecanismos que promovessem a liberdade individual, o livre pensamento, a liberdade de locomoção, o acesso à justiça, à educação, e tudo isso como forma de garantir a nós, seres humanos, a nossa plena atuação no mundo.
Por exemplo: se investirmos em uma educação com qualidade, promoveremos a dignidade (direito consagrado na Declaração Universal dos Direitos Humanos) da pessoa humana. E assim, conscientização, reflexão, desenvolvimento de capacidades, e, conseqüentemente, preparo para o mercado de trabalho, redução da violência e da criminalidade e igualdade social serão alguns dos benefícios que abraçarão toda a sociedade. E com a redução da violência, o direito à propriedade nos é assegurado (outro Direito consagrado na Declaração). Com a diminuição do índice de desemprego, a prática de atos ilícitos também se reduzirá. Com a implementação de uma educação onde todos tenham acesso, a sociedade não restará sujeita às tiranias e abusos por partes dos poderosos e tão pouco seus direitos civis serão violados com facilidade, sem nenhuma repulsa. Quando o cidadão tem a consciência do universo ao qual ele está inserido, quando capaz de refletir, ele passa a exigir do Estado determinadas prestações positivas. Mais, a sua consciência será motivada de modo a aceitar diferenças, a desenvolver a tolerância, aceitando-se os diferentes pensares, o direito a se ter e a praticar uma religião, promovendo-se, por fim, a igualdade de gêneros. Uma coisa está relacionada à outra e portanto, a busca por estes valores solidários e proteção nos domínios econômico e social deve ser uma constância.
Contudo, nesta Aldeia Global à qual estamos inseridos, donde valores se diferenciam entre tribos, não é fácil obter resposta à seguinte questão: Como respeitar a vida, direito universal, quando tal direito confronta costumes e leis – religiosos ou seculares! – que contradizem a proteção de tal bem (a vida como bem maior)?
É claro que valores explicam premissas e definem pontos essenciais no que concerne à tomada de decisões. Por isso, entendo, torna-se importante repensarmos as implicações éticas, socioculturais, religiosas e políticas que aderimos, desenvolvendo uma consciência que nos permita viver em acordo, onde o respeito mútuo seja observado, especialmente quando entendemos que supremacia de vontades não permite uma (con)vivência harmônica quando inseridos nesta aldeia global.
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