Máquina Transformadora

A morte de um yorkshire como um convite à reflexão para uma participação social, cristã e cidadã.

Publicado em Brasil, Direitos Humanos, Justiça, Religião por georgesilva em dezembro 23, 2011
Evil is unspectacular e and always human, and shares our bed and eats at our own table.   – W. H. Auden, Herman Melville

Esta semana vi o Brasil insurgindo-se porque uma enfermeira, propositadamente e de forma extremamente violenta, matou um filhote de Yorkshire. O vídeo foi postado no “youtube” e causou em muitos comoção e revolta, a ponto de serem incitados atos de violência contra a autora de tal atrocidade e isso através de comentários nas redes sociais.

Assistí ao vídeo e, de fato, fiquei perplexo, triste e pensativo: – como pode um ser agir de tal forma contra outro ser, inofensivo, incapaz de defender-se?

De fato, o ser humano tem uma capacidade incrível de promover o mal. Somos a única raça que mata , por exemplo, por prazer. E quando falamos desta imensa capacidade em direcionar as habilidades para o mal, nem precisamos fazer alusão a Stalin, Hitler ou Saddam Hussein. Basta olharmos para pessoas comuns, do nosso bairro, do nosso ambiente de trabalho, das nossas igrejas, da nossa escola e faculdade. Mais do que isso, basta olharmos no espelho. Bem ali, diante dele, figura a imagem de um ser tão perverso e cruel quanto aqueles acima referidos.

Voltando à enfermeira: ao ler alguns dos comentários feitos em relação à ela na rede mundial de computadores, notei uma certa inversão de valores. Ou, quem sabe, a ausência destes. O que é errado é errado e ponto. Cada um deve ser responsabilizado pelos atos que pratica e de acordo com as disposições legais. Entretanto, penso ser desproporcional manifestar-se – por exemplo – a favor da “pena de morte” para aquela enfermeira quando outros atos tão sérios quanto aquele não são combatidos com a mesma intensidade e rigor. Porque, por exemplo, não nos manifestamos da mesma forma, com a mesma indignação, quando tomamos ciência de pessoas que, por agirem de acordo com as normas legais, morais e éticas, são despedidas dos seus trabalhos ou até mesmo assassinadas (como aconteceu com a Juíza Patrícia Acioli que, conhecida pelo rigor na luta contra as máfias, foi executada há alguns meses atrás com 21 tiros por ter condenado policiais militares envolvidos em ações criminosas)? Porque não nos revoltamos com a mesma veemência quando pessoas normais, como eu e você, promovem o tráfico humano ou consentem com a corrupção (já tão institucionalizada neste país)? Porque não levantamos alguma bandeira quando os idosos são tratados com descaso nas filas enormes do INSS, ou quando vemos crianças nas ruas ao invés de acolhidas em um bom lar, devidamente alimentadas e recebendo uma educação com qualidade, estes princípios constitucionais?

Será que tais questões não são tão sérias ou comoventes quanto o assassinato de um cão? Que balança estamos usando? Que valores estamos pregando? Porque tamanha inércia? Que justiça e princípios morais, religiosos e éticos estamos semeando? E quais nossos filhos colherão?

Defendo a vida em qualquer das suas formas. Defendo a necessidade de revermos nossos valores e, com equidade e justiça, garantirmos a proteção e manutenção da vida. De todas elas.

Defendo que é preciso reconhecer as implicações éticas de cada mínimo ato e palavra de nós provenientes e que ignorar tal circunstância também trará implicações sociais e políticas.

Sim! A morte de um cão expôs a ausência de valores morais, éticos e cristãos na nossa sociedade. Por outro lado, a morte deste mesmo cão nos serve como um convite à reflexão para uma participação social, cristã e cidadã.

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A primeira vez a gente nunca esquece!

Publicado em Justiça, Timor Leste por georgesilva em abril 13, 2011

Já faz um bom tempo que isso aconteceu. Foi em Março de 2005. Mas como tudo na vida, a primeira vez a gente nunca esquece.

Na primeira audiência que participei em Timor-Leste, assessorando uma Juíza de Direito de nacionalidade Portuguesa, pude ter uma idéia do que me aguardaria pelos anos seguintes nesta terra de tantas diferenças.

A nora, ao brigar com a sogra, puxou os brincos desta, rasgando-lhe parte da orelha.

A juíza, para pôr fim ao litígio, tentou uma composição, ao que a sogra aceitou mas com uma condição: que lhe fosse restituído o brinco.

A essa altura eu já havia estudado o processo e por isso eu sabia que num saquinho plástico, grampeado à uma das folhas dos autos, estava lá, todo reluzente, o requerido brinco.

A Juíza deu ordens para fazer o auto de entrega ao que eu lhe perguntei: e a orelha? Devolvo também?

Inacreditavelmente, a parte da orelha que foi rasgada encontrava-se ainda atrelada aos brincos, agrafados ao processo. Me lembrava um pedaço de Jabá, aquela carne seca muito consumida no nordeste brasileiro.

Passei a tarefa ao funcionário timorense que resolveu: entregou à senhora o saquinho, restituindo-lhe tudo o que era seu. O que ela fez com a parte da orelha? Preferi não saber.

 

 

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Democracia e Direitos Humanos

Publicado em Justiça, Política, Timor Leste por georgesilva em outubro 6, 2010

Inicio a fase de entrevistas para novas oportunidades de emprego.

Tem sido interessante a experiência de agora, prestando consultoria jurídica aqui em Timor Leste (nomeadamente para o setor privado). Entretanto, sempre me vi mais motivado desenvolvendo trabalhos em prol da comunidade, promovendo justiça social, democracia e proteção dos direitos humanos, por exemplo.

Com efeito, observo com a evolução do Estado o aparecimento de mecanismos para a proteção de inúmeros direitos em favor do ser humano, desde o direito a vida, à liberdade, igualdade e, também, à propriedade. Tais princípios encontram-se  atualmente avençados nas Constituições de diversos países, dentre os quais o Brasil e o Timor Leste.  A Constituição de Timor, aliás, foi a meu ver muito bem idealizada e elaborada.

É interessante fazer esta relação entre Democracia e Direitos Humanos, especialmente quando os Estados Democráticos passam a entender que uma das suas principais responsabilidades é sim promover e proteger os direitos humanos fundamentais.

Obviamente que, a partir daí, cabe a este mesmo Estado criar mecanismos que viabilize e possibilite transformar este ideal em algo concreto. Como exemplos – e neste particular ponderando o que a meu ver  acontece aqui em Timor – urge a necessidade de serem fortalecidas instituições como a Defensoria Pública e até mesmo o Ministério Público, conferindo-lhes estruturas e meios para que alcançem as comunidades rurais. Mais, faz-se necessária a compreesão da teoria da “tripartição dos poderes” (Montesquieu), hoje uma das pedras fundamentais do exercício do poder democrático e as vezes pouco compreendida por agentes do legislativo e executivo.

Também, capacitar a polícia, conferindo-lhes treinamento adequado – inclusive quanto aos princípios de Direitos Humanos  – é outra tarefa que não pode ser adiada. Até mesmo porque o trabalho efetivo do Ministério Público depende de uma boa investigação (investigação esta que em Timor Leste é quase sempre realizada pela polícia de investigação mas sob a orientação do próprio Ministério Público).

De fato, não se é possível promover os direitos humanos quando ausente a democracia. Ademais, e no caso dos direitos humanos não serem respeitados, não posso crer que exista uma democracia efetiva.

Nove meses depois…

Publicado em Justiça, Timor Leste por georgesilva em abril 7, 2010

Depois de semanas de estresse preprando as alegações finais, o processo finalmente chegou ao fim. Ou quase! Angelita Pires foi absolvida. Fiz o melhor que pude, como sempre procuro fazer. O resultado foi favorável mas houveram momentos em que cheguei a pensar que poderia ter sido diferente.

Apesar de que nenhuma evidência havia para dar suporte aos fatos alegados na acusação, não pude deixar de pensar que ingerências externas pudessem coibir uma decisão contrária às provas (e contra-provas) que foram produzidas no decorrer destes quase 9 meses de julgamento. Basta lembrarmos do que ocorreu com Martenus Bere, o cidadão indonésio que lançou uma campanha de violência e terror contra moradores de Covalima – Distrito que faz fronteira de Timor Leste com Timor Oeste -, matando aqueles que foram identificados como opositores ao Governo Indonésio e articuladores do movimento pró-independência. Esta ação por ele patrocinada é ainda lembrada como tendo sido um dos piores massacres ocorrido em Timor no ano de 1999. Martenus Bere foi devidamente acusado por crimes contra a humanidade. Apesar do fato de que Bere encontrava-se em prisão preventiva a aguardar julgamento, o mesmo foi entregue ao Governo Indonésio por autoridades locais em total desrespeito à ordem emanada pelo Poder Judiciário de Timor Leste. Neste aspecto, observo que o processo conhecido como “11 de fevereiro” é um caso político. Logo, a atendo-se ao que ocorreu com Bere, como não temer que interesses externos interferisse no processo em que Angelita Pires foi acusada?

Com efeito, o trabalho até aqui foi bem feito. Não só por mim, obviamente, mas também através da atuação da Dra. Zeni Arndt, do Dr. André Fernandes e do Dr. Jon Tippett. Seria difícil condenar Angelita Pires quando efetivamente nenhuma prova havia contra ela.  Muito mais quando toda a mídia australiana encontrava-se aposta, cobrindo (pra não dizer fiscalizando) tudo o que se passava no Tribunal.

São poucos os casos que um Jurista se recorda no decorrer de toda a sua atuação como aplicador do direito. Sem dúvida, este será um caso do qual não me esquecerei.

Resta agora responder ao recurso interposto pelo Ministério Público. Os argumentos por este levantado nas suas razões recursais são frágeis e insubstanciais, como foram também suas alegações durante todo o processo. Na verdade, e com o devido respeito,  entendo que não haviam provas eficazes e eficientes para ensejar a condenação de qualquer dos arguidos acusados. Para além do que, em meio a tantas dúvidas que surgiram no decorrer do julgamento, ao menos deveria ter sido aplicado aos arguidos condenados o príncipio in dubio pro reo. Ou seja: sempre que há qualquer dúvida, deve-se absolver.

Por certo, ante as dúvidas decorrentes de contradições das declarações das vítimas e testemunhas e considerando ainda a fragilidade dos demais elementos do conjunto probatório, por aplicação do princípio do in dubio pro reo, impunha-se a absolvição dos agentes.

Angelita sempre pareceu ser uma mulher forte. Entrou no primeiro dia de julgamento no Tribunal vestida com tais – um tecido tradicional -  e com os pés descalços, pronta para encarar  com coragem todas as alegações contra si levantadas. Seu discurso, ao final do julgamento, levantou problemas basilares do sistema judiciário timorense; apontou falhas na gestão do atual Governo; para além do que, sugeriu que todo este processo não passou de uma “farsa para encobrir interesses ainda escusos”. Mostrou-se aberta para lutar pelo povo do país onde nasceu e o que resultará disso, só o tempo dirá.

Caminho estreito

Publicado em Justiça, Sobre muitas coisas..., Timor Leste por georgesilva em julho 27, 2009

Dili, 27 de Julho de 2009! Na sessão de julgamento de hoje, foi ouvido o “lesado” Agapito Gonçalves. Agapito, agente da PNTL, era um dos seguranças do Primeiro Ministro e o acompanhava no instante em que o carro foi alvejado na manhã do dia 11 de Fevereiro de 2008. Declarou perante o Tribunal que por volta das 7:00 horas da manhã daquele dia, após tomarem conhecimento de que o Presidente José Ramos Horta havia sido baleado, deixou a casa do Primeiro Ministro e seguiu com este em direcção ao Heliporto. Entretanto, após percorrerem 400 metros, o pneu traseiro esquerdo do carro em que seguiam foi alvejado por um tiro. Na sequência, foi alvejado o vidro de trás. Os estilhaços teriam ferido a mão do Primeiro Ministro.

Seguiam em caravana, num total de 3 viaturas. À frente, portanto, seguia um carro da segurança. Na sequência, o carro em que ele, Agapito, estava, juntamente com o motorista e o Primeiro Ministro. Logo atrás, uma viatura da UNPOL com dois agentes tailandeses. Num primeiro momento, afirmou que após ouvir o primeiro tiro, baixou o vidro do carro e passou a responder, atirando em direção à montanha, posto que pensava que de lá vinham as balas. Seguidamente, aceleraram o carro e chocaram com a viatura da segurança que estava à frente. E aqui começa a grande aventura de Agapito e sua troupe na tentativa de promover a segurança do PM: andaram com o carro, mesmo com o pneu traseiro vazio, por cerca de 200 metros e a uma velocidade aproximada de 60 a 70 km/h (sim, foi o que ele disse!), quando então pararam porque “concluíram” que aquela viatura não estava em condições de seguir para Dili. Sendo assim, desceram do carro, pararam uma “Anguna” (um daqueles caminhões utilizados para o transporte de passageiros, quase sempre sem cobertura), donde subiu o motorista que conduzia o carro do PM, o próprio PM e o declarante. Fiquei então a imaginar a aventura de Xanana a ser conduzido no meio do povo, na carroceria da tal anguna, em direção a Dili. Mais, Fiquei a pensar quanto tempo teria decorrido entre o momento em que Xanana e seus seguranças abandonaram a viatura, pararam a Anguna (que supostamente teria passado em meio ao tiroteio, já que vinha da mesma direção…) e nela subiram, seguindo em direção a Dili. Que aventura! Mas aquela “euforia” durou pouco, uma vez que, segundo Agapito, após andarem alguns metros, “concluíram” (mais uma vez!)  que aquele meio de transporte não seria seguro para Xanana!

Então, pararam novamente a Anguna (pra azar do motorista e cobrador da mesma que perderam 3 clientes!) e passaram a percorrer, a pé, por “um caminho estreito” (isso me lembra aquela passagem da Bíblia em que diz que poucos escolhem o caminho estreito, que conduz à Salvação! Por sorte o Primeiro Ministro escolheu bem aquele dia!). Mas as surpresas não param por aí! Não senhor!: de repente, enquanto o PM, Adolfo e ele, Agapito, percorriam por “aquele caminho”, fora da estrada principal, chega ali, do nada, uma quarta viatura, conduzida pelo chefe da segurança do PM, conhecido como Abílio… Fan-tás-ti-co! O dia estava salvo – e Xanana também -!

Entretanto, algumas das falas de Agapito na tarde de hoje trouxeram algumas dúvidas. Por exemplo: referiu o mesmo que a casa do PM até o local em que os fatos se deram dista 400 metros. Referiu que enquanto desciam da casa do PM em direção ao Heliporto, cruzaram com António, segurança de Kristy Gusmão e seus filhos. Que este encontro se deu antes de chegarem ao local da ‘emboscada’. Disse ainda que transitavam a cerca de 40 km/h. Mais, afirmou que encontrou o António cerca de 3 minutos “antes” de chegarem ao local dos incidentes. Agora, vamos pensar o seguinte: quanto tempo levaria um carro, numa velocidade de 40 km/h, a percorrer 400 metros? Os físicos de plantão que me corrijam, mas se eu não estiver enganado, tal percurso seria realizado num período de… Tchanananan!!! 36 segundos!!! Logo, como teria ele, Agapito, enquanto desciam para o Heliporto, contactado o António quando este subia em direção à casa do PM, e levado, deste ponto de encontro, cerca de 3 minutos até a chegada ao local onde a ‘emboscada’ estava preparada? Ademais, se confrontarmos estas declarações com as declarações prestadas pelo agente da UNPOL que estava no local onde os fatos se deram, há uma grande discrepância. Ambos os agentes da UNPOL afirmaram nas declarações para memória futura que António somente chegou no local onde ocorria o tiroteio quando este havia cessado. Ademais, António ainda deu carona (ou boléia, como dizem os amigos portugueses) ao agente da UNPOL de nome Konsan. Consoante a tudo o que nesta tarde foi dito, perguntado pela defesa a Agapito quem, naquela situação, tomava decisões com vistas a efetuar a segurança do PM (como, por exemplo, de quem teria sido a idéia genial de pegarem uma Anguna!), Agapito falou e falou e falou e recontou toda a história quando então, ao final, após a insistência da defesa, concluiu: “- Foi o motorista!”. Estranho que um agente que desde 2002 nada mais faz a não ser promover a segurança do PM tenha tanta dificuldade em tomar decisões num momento daquele. Sem dúvidas, ainda há muito para se esclarecer (se é que o será!)…

E enquanto o ‘enigma’ não se resolve, vamos a um pouquinho de

Cinemática:

Pois bem: Um automóvel transita numa velocidade de 40km/h. Quanto tempo levará para percorrer 400 mts?

a-) 20 segundos;
b-) 36 segundos;
c-) o motorista vai parar pra bater uma prosa com um colega e comentar sobre o jogo da última semana? Hummm… Se sim, o percurso pode levar uns 20 minutos!
d-) depende! Se o motorista for  segurança do PM, isso é relativo!
e-) duas das respostas acima estão certas;
f-) nenhuma das respostas anteriores!

Dicas de como fugir de uma emboscada!

Aprenda com um segurança do Xanana, passo a passo, como fugir daquela emboscada que preparam para ti:

1-) certifique-se de que seu colega, que conduz o carro que vai à frente, tenha carta de condução, sabendo a diferença entre direita e esquerda;

2-) não discuta com esse seu colega em hipótese alguma! Numa situação de emergência, ele pode te sacanear, não lhe dando passagem quando necessário!

3-) Caso seu carro tenha um pneu furado, não pegue uma anguna! Pegue uma mikrolet! As microlets são fechadas e com banquinhos mais confortáveis. E uma vez lá dentro, meta-se no meio do povo! Assim, por estarem quase sempre cheias, ficará mais difícil ser reconhecido pelo inimigo. Não é à toa que em todas elas vem aquele escrito no vidro traseiro: “full body press”!

4-) Para o caso de você ter que pegar uma trilha, tenha em mãos um manual dos escoteiros mirins, aquele mesmo que os sobrinhos do tio patinhas sempre utilizavam em situações de emergência. Quando criança, eu tinha um! Era fantástico e de fazer inveja ao MacGyver!

Pires

Publicado em Justiça, Timor Leste por georgesilva em julho 13, 2009

Em todos os blogs timorenses e jornais australianos só dá Angelita Pires. Esta mulher foi companheira de Alfredo Reinado, um militante que liderou um grupo que buscava defender, “à sua maneira”, a sua honra e a justiça. Bem ou mal, agiu em prol de uma causa, em algo que acreditava. A meu ver, foi usado para realizar os interesses – escusos ou não! – de alguns. Acredito que no decorrer deste processo algumas verdades poderão vir à tona. Afinal de contas, mais do que descobrir quem efetivamente tentou – e porque tentou! – matar o Presidente da República, Dr. José Ramos Horta, isso no atentado ocorrido em 11 de fevereiro de 2008, é necessário também desvendar quem teria feito Alfredo acreditar que o Presidente, na manhã daquele dia, desejava com ele se encontrar. Hoje, os arguidos, à exceção de Salsinha, resolveram fazer uso do direito ao silêncio. Neste momento, e sob o ponto de vista da defesa, foi a coisa mais sensata a ser feita. Por outro lado, é certo que muitos deles sabem de fatos que poderiam resultar na descoberta da verdade. Como essa verdade ainda insurge no campo das possibilidades, vamos aguardando e torcendo para que o próximo episódio desta novela traga, ao menos, algumas revelações. Angelita, neste momento, deixa transparecer a imagem da mulher timorense, sofredora e injustiçada, que foi “pega pra Cristo”. Seu romance com Reinado chamou a atenção da mídia internacional, principalmente por ter ela, para além da cidadania timorense, a australiana. Tem um espírito forte de liderança. Sem dúvidas, poderá se tornar uma das grandes personalidades políticas de Timor.

Para saber mais sobre Angelita e ver o que saiu hoje sobre o julgamento, clique aqui, e aqui, e mais aqui, e aqui, e mais aqui também!

Mais uma semana…

Publicado em Justiça, Timor Leste por georgesilva em julho 13, 2009

Mais uma semana se passou e com ela, alguns problemas se foram e outros novos surgiram…

Chegou o tempo de se preocupar com esse tal julgamento. Tudo o que agora leio, estudo, faço – como este post! -, encontra-se relacionado ao processo que apura os atentados de 11 de Fevereiro de 2008. Angelita Pires é uma das arguidas e é para quem, através do Governo Australiano, passo a auxiliar. A ela e à equipe jurídica por aquele governo contratada.

Depois de atuar por um ano e meio como Representante do Ministério Público, troco novamente de lado a fim de auxiliar, desta vez, na promoção da defesa de Angelita. São dois advogados australianos e dois brasileiros. No caso, a Dra. Zeni Arndt, Defensora Pública da União que recentemente se aposentou vindo para Timor para atuar especialmente neste caso, e eu, um simplório assistente.

Jon Tippet, um dos advogados australianos e que tem o título de “Queens Counselor” (aparentemente, como ele, há apenas outros 29 em toda a Austrália) é expert em técnicas forenses e em balística.

Pode parecer besteira, mas sinto-me mesmo lisonjeado com esta oportunidade. Eu sempre soube que Deus tem sempre o melhor pra nós. Mas as vezes não imaginamos que uma imensidão de coisas boas pode nos acontecer num prazo tão curto…

Hoje foi o primeiro dia de julgamento. São 24 volumes para serem estudados e mais alguns anexos ao processo principal. Para o primeiro dia de julgamento, o resultado foi razoável. São 28 arguidos e mais de 130 lesados e testemunhas a serem inquiridas. Vai levar um tempo, mas quero aproveitar ao máximo a oportunidade de aprender um pouco mais com essa gente. Fazer parte de mais um caso como este é também fazer parte de mais um momento histórico de Timor. Sem dúvidas, mais histórias para contar aos netos daqui muito, muito tempo…

Novos Rumos

Publicado em Baucau, Justiça, Sobre muitas coisas..., Timor Leste por georgesilva em julho 3, 2009

DSC_4423Último dia de trabalho na Procuradoria Distrital de Baucau. Desde logo cedo, a sensação de que tudo o que seria feito, o seria pela última vez: a última audiência, o último café da manhã tomado com a Ni, o último banho de caneca no banheiro com “sanita indonésia”, a última noite adormecida à luz da vela (já que aqui, desde março, a falta de eletricidade é algo comum!), dentre outras coisas.

Na verdade, os últimos dias foram marcados por uma pergunta frequente: “Agora Dôtor fila ba Brasil?”

A resposta que me vinha à mente era bem essa: “- Eu não sei!”

E não sei mesmo.

Apesar de ter sido o último dia no trabalho, atendimento ao público, instrução à polícia sobre ‘procedimentos criminais’, reunião com representante da Unidade dos Direitos Humanos, para além de despachos e decisões processuais, foram realizados de forma intensa. Ademais, ainda tive tempo para conversas, muitas conversas, e fotos, muitas fotos, com os funcionários timorenses. Deles sentirei imensas saudades. Despedida é quase sempre assim: deixa-nos um gosto meio amargo por alguns momentos. Depois, algum tempo depois, esse sabor é amenizado com a sensação de saudade, uma palavra bem portuguesa que define muito bem a vontade de experimentar novamente aquilo que se viveu e que foi bom.

Eu sempre soube que este dia chegaria e, na verdade, passei os últimos dois meses me preparando pra isso. No entanto, quando nos deparamos com tantas demonstrações de bem querer, especialmente por parte dos timorenses – por quem de fato aqui estou! -, a realidade circunstancialmente passa a ser indesejada.

De repente um monte de coisas passam pela cabeça da gente: as viagens semanais de Dili para Baucau deixarão de ser rotina. Da mesma forma, acordar bem cedo, logo na segunda, relembrando o personagem Garfield que odiava o segundo dia da semana, será algo do que, agora, sentirei imensa falta. E sentirei falta também das trocas de pneus e até mesmo das horas e horas parado à beira do caminho tentando desparafusar uma porca que havia sido apertada inadequadamente… Não por mim, anoto!

Sentirei falta da poeira das estradas e das rodas vagarosas das microletes e das “bis” – uma espécie de ônibus! – que transitavam com gente, com cabras, com porcos, motos, geladeiras e tudo mais que seja transportável, dentro ou pendurados do lado de fora. Também, sentirei falta das conversas durante o percurso, dos jantares improvisados no pequeno quarto do complexo residencial marista e dos biscoitos de maizena divididos com a Costela, uma cadela que aparecia nos fins de tarde e então fazia companhia. A mim e à Ni.

Mais, sentirei falta dos processos com narrativas engraçadas, como o caso da senhora que agrediu fisicamente uma colega enquanto discutiam política. Nesse caso, a motivação maior da agressão teria sido o fato de que aquela primeira teria comparado o pênis do atual Primeiro Ministro com uma banana, cortando-a em seguida com uma faca (a banana, claro!) ao afirmar que “aquilo” era o que ele, PM, merecia, eis que havia prometido “matar a fome” do povo e, agora, excercendo o Poder, “pouco” fazia pelos seus… A reação, consoante a isso, foi imediata: um puxão de cabelo daqui, um arranhão ali, e logo as duas “analistas políticas” se enrroscavam chão afora. A primeira, porque achava que poderia fazer o que quisesse com a tal banana. A segunda, na suposta tentativa de defender a honra subjetiva de outrem. E da banana, ninguém mais soube. Engraçado como política, futebol e religião sempre geram polêmica e confusão em qualquer sociedade, não? Pois é isso: cada dia vivido em Baucau me proporcionou histórias e percepções diversas.

Durante este tempo, ouvi muito, conciliei muito e compartilhei muito. Aprendi muito também.

Foram inúmeros rostos, nomes, histórias, insatisfações, sonhos e esperanças. Vivi uma realidade intensa de cores e sentimentos, de músicas e também de privações. Foi a descoberta de um mundo novo. Obstante, e de algum modo, de alguma maneira, dei a minha contribuição a esse sistema chamado Justiça.

No final de um ano e meio atuando como Representante do Ministério Público, ficou ainda uma certeza: Fiz o melhor que pude e aquele George de ontem já não é o mesmo hoje. Ainda há pedras a florescerem, mas algumas sementes foram por mim plantadas. No tempo certo, crescerão. É isso!

A estrada está memorizada. Conheço todos os buracos. Adorava dirigir por ela, ouvindo minha seleção de músicas no ipod, solfejando-as quando conduzia sozinho. Agora, o futuro ainda é um pouco incerto. Tenho alguns planos, algumas propostas a considerar, e talvez até seja tempo para projetar-me em direcção a novos – e também antigos! – horizontes, como terminar – finalmente! – o meu MBA.

Nesse sentido, e a par da uma imensidão de rotas já navegadas, me vem à mente a frase de Rainer Maria Rilke: “é preciso voltar a pensar em caminhos, em regiões desconhecidas”. E essa é uma das poucas certezas que agora tenho.

Ps.: Este texto foi escrito no dia 30 de Junho e postado somente hoje porque, em Baucau, eu não tinha acesso regular à internet! Disso, não sentirei saudades!

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